segunda-feira, 16 de maio de 2016

Cegueira

A cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança. (José Saramago - Ensaio sobre a Cegueira)


Cegueira

Janeiro passou voando
Foi como cobra que se arrasta
foi brasa acesa, queimando
Foi como fogo que se alastra
Que mata e a gente nem vê 

Fevereiro foi insano
Como pio de pássaro na floresta
Como conselho de arcano
Como coração em festa
Que chega e gente nem vê

Março foi um aguaceiro
De chuva e de lágrima
Que lava o céu inteiro
Um banho de lástima
Que encharca e a gente nem vê

E abril passou sem graça 
tal como vento
tal como rio que passa
tal como o tempo 
que morre e a gente nem vê. 

Maio foi de ressaca
De rosto que amassa
De boca que resseca
De sono que não cessa
Que castiga e a gente nem vê 

Junho foi escuro
Tipo treva, tipo breu
Tipo planejar o futuro
Tipo abismo, tipo eu
Que me escondo e a gente nem vê 

Julho foi chumbo
Foi pesado como bala de canhão
Foi ver do poço, o fundo
Foi desgovernar na contramão
Que destrói e a gente nem vê 

Agosto foi desgosto
E perdoe-me pelo clichê
E perdoe a ruga em meu rosto
É o sofrimento a me envelhecer
Que entristece e a gente nem vê

Setembro foi flor em botão 
Que a gente tem medo de regar
Que a gente guarda no coração 
Que a gente tem medo de estragar
Que desabrocha e a gente nem vê

Outubro foi raio de sol 
E sua luz amena e pálida
E seu lume de farol
E sua beleza cálida 
Que aquece e a gente nem vê 

Novembro foi calor
Daqueles que esquentam
Daqueles de doce torpor
Daqueles de suam
Que queima e a gente nem vê 

Dezembro foi verão
De céu e de mar azul
De pura imensidão 
Do nosso corpo nu
Se amando e a gente nem vê 

Recomeços.



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Sei lá, sei lá... a vida é uma grande ilusão...


quarta-feira, 16 de março de 2016

Você & Eu

Outro poema "antigo":

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Eu & Você

Gosto da firmeza do teu corpo 
Da certeza maciça que ele me traz 
Gosto das tuas mãos suaves 
Do leve roçar dos teus dedos nos meus
Gosto de ver teu riso de menino
E teu rosto de homem com a barba por fazer 
Gosto desses olhos que sorriem junto com a boca 
Que se fecham involuntariamente de alegria 
Gosto da tua companhia quieta, discreta 
Da segurança que eu sinto ao teu lado 
Gosto da tua seriedade juvenil 
E da paixão com que se dedicas ao que lhe é importante 
Gosto de te ver a minha espera
E das borboletas que voam no meu estômago quando isso acontece 
Gosto das palavras ditas apressadamente pra que eu não perceba
E gosto da reação que elas me causam
Gosto da curva entre teu pescoço e os ombros 
E de todos os detalhes do teu corpo que eu já reparei
Gosto dos teus lábios carnudos, que me lembram almofadas 
Mas não gosto do fato de não estarem colados aos meus 
Não gosto de pensar que nós só existimos na minha imaginação 
Não gosto do tempo que perdemos todos os dias 
Das oportunidades que desperdiçamos Das manhãs que não nos vemos 
Das vezes que nos desencontramos
E principalmente, não gosto quando a coragem me abandona
E eu não consigo te dizer o quanto eu gosto de você.

Fonte: Google Imagens

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"Seja eu! Seja eu! Deixa que eu seja eu e aceita o que seja seu. Então deita e aceita eu..."

segunda-feira, 14 de março de 2016

A Cor e o Som

Para celebrar o Dia Nacional da Poesia, lanço um dos meus poemas preferidos, lá de 2007/2008:

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A cor e o som

A cor doce da fruta macia
Encanta meus olhos como o riso leve da primavera
Enche minha boca com o sabor molhado do rio
E invade minhas narinas como o amarelo brisa do céu
O toque aveludado do som da tua voz...
Carícia boa de receber aos ouvidos
Teu beijo, carinho extremo do amor nosso
Boca tua na minha, a cor da paixão no desejo
O som vermelho do teu coração no meu peito...
Esqueço-me de tudo, branco da alma nossa aqui
O som do meu mar, mergulho em ti
Tambor multicor a ribombar no peito
Explode...
Desejo, desejo
Fruta colorida colhida no pé
Teu beijo, teu beijo...

Fonte: Google Imagens

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"Diz que é verdade, que tem saudade, que ainda você pensa muito em mim. Diz que é verdade, que tem saudade. que ainda você quer viver pra mim."

sábado, 12 de março de 2016

Poema da Dependência

Poema da Dependência 


Agarro-me à fina borda de tua presença
Tal qual náufrago ata-se à boia
E em desesperados sussurros
Suplico que não me abandones

De minha garganta seca
Sai o grito emudecido de socorro
Quem ouvirá meu lamento
Quando não estiveres por perto?

Não me deixe a sós, comigo 
Porque sozinha já não sou ninguém 
O medo me paralisa no escuro
E febril, procuro a tua mão 

Talvez tal tarefa seja um fardo
Não pedistes por nada disso
Mas o que posso eu fazer 
Se tua presença se fez essencial?

Meu coração a correr como trem descompassado
Bate trôpego quando não te vê 
E eu sinto tanto a tua ausência 
P R E C I S O  D E  V O C Ê



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"E eu vou dizendo na sequência, bem cliché: Eu preciso de você!"

quarta-feira, 9 de março de 2016

Fragmentos


Como vidro quebrado
Minha resistência jaz no chão
Vejo os pedacinhos transparentes
Prontos para virar pó

Do pó eu vim
E ao pó retorno
Tão cliché
E tão cruel

Mágoas vividas
Fragmentos de mim que bóiam
É a ansiedade que treme
Em meio à respiração entrecortada

Corto os pulsos
Corto as amarras
Corto a fina linha que me separa
Da sanidade

Voei.


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"Does that make me crazy? Does that make me crazy? Does that make me crazy? Possibly"