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segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Quando a revolução chegar

Quando a revolução chegar
Ela não trará flores
Nem sorrisos
Virá com os olhos embotados
De lágrimas e injustiças
E requisitará a tua mão

Quando a revolução chegar
Não trará belezas
Nem alegrias
Chegará calejada e áspera
Da labuta diária
E quererá a tua força

Quando a revolução chegar
Não virá em cavalo branco
Nem de carro
Mas nos pés oprimidos e teimosos
Despidos de tudo
E buscará o teu vigor

Quando a revolução chegar
Não virá de fácil acesso
Nem bom grado
Mas da força da massa uníssona
Do povo unido
E precisará da tua voz

Quando a revolução chegar, amor
Antes da sonhada liberdade
Haverá luta
Antes da nossa glória,
O luto
Que, para nós, será verbo.



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"Vem, vamos embora que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer."

domingo, 25 de agosto de 2013

Inócua

Inócua

Transparente
Indiferente
Inexistente
Inconsciente

Era assim que eu me sentia
Quando na rua eu vivia
Dia e noite, noite e dia
Sem ao menos ser notada.

Achava que eu era toda errada
Que vivia assim, desbotada,
Sem cor, sem brilho, sem nada
Porque eu era indigente.

Meu passado intransigente
Me pegou assim, tão de repente
Que eu, tão tola, finalmente
Fiquei à mercê da sorte, largada

Perambulando pela estrada
Uma vida desgraçada
Pé sujo, roupa rasgada
Rezando e esperando pelo fim

Mas não veio tão depressa assim
Num borrão pintado com nanquim
Vejo o algoz que sorri para mim
E logo vem a violência

Anos de rua, virando inconsciência
Palavras afiadas, socos, dormência
Revelam a verdadeira aparência
Da existência sofrida, sem mãe, sem pai.


E meu sangue se esvai
Vida que vem e que vai, que vai
É o fim da linha, é a dor que sai
E meu corpo inerte, na pedra fria.

Agonia
Sentia
Vivia
Morria.





"E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego."

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Há pouco menos de 1 mês eu vi uma briga de rua. Não dessas cheias de socos e pontapés, entre pessoas que se estranham no trânsito. Não dessas entre crianças que se desentendem durante a aula e vão se acertar na saída. Era uma briga cheia de incoerências e injustiças, onde 3 pessoas atacavam uma 4ª pessoa, claramente em estado alterado.Tudo começou numa discussão entre 2 pessoas, cuja centelha eu não presenciei, mas eu estava lá durante o desenrolar do bate-boca. Um homem e uma mulher, ao que outra mulher tomou as dores do homem, e ainda neste ponto estávamos apenas com gritos e xingamentos, quando então um outro homem veio e empurrou a mulher que brigava primeiro, com força, e esta bateu a cabeça no chão e perdeu os sentidos. Sei que pode parecer demasiada, mas a sensação que eu tive, do ponto tão próximo onde eu estava, dentro do ônibus fechado e acompanhando a cena por mais de 3 minutos, foi de que ela perdeu a vida. Não sei se isso realmente aconteceu, provavelmente não, mas só sei que no segundo em que a cabeça daquela senhora moradora de rua encontrou o asfalto, eu encontrei também dentro de mim uma compaixão tremenda, que implorava para que ela não morresse. E perdi a capacidade de reação. No ônibus, todos perderam o fôlego, e ninguém conseguiu encontrar coragem para levantar e ir lá ver o que tinha acontecido. Eu não consegui.
Desde então estas cenas permeiam meus pensamentos e pesadelos. Frequentemente reencontro estes 4 personagens em minha mente, e todas as vezes, todas as benditas vezes, eu imploro pela vida dela. Não porque eu a conheço. Nem mesmo pelo desespero que eu sei que vou sentir quando as cenas se dissiparem. Não é por mim, é por ela. É porque eu me recuso a acreditar que a vida valha tão pouco, que temos motivos tão banais para tirar a vida de alguém ou até mesmo para agredir este alguém. E é também porque eu me recuso a aceitar que isso seja tão corriqueiro, e até mesmo banal. Eu me recuso a acreditar que nós nos acostumamos com a violência. Eu não aceito. Eu não me acostumo. E não quero acreditar que existem pessoas no mundo que já estão com o coração tão endurecido a ponto de querer achar justificativas. A vida vale mais. Nós valemos mais. Todos nós.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Sacolas


Sacolas

Quando tudo o que tens
Cabe em duas sacolas
Você ouvirá dizerem por aí:
- É um coitado, vive de esmolas.

Mas mal sabem eles
Que riqueza, trazemos dentro do peito
Que não é o modelo de um carro
Que deve nos trazer respeito.

Penso eu então aqui no meu canto
Que vida triste deve ter um sujeito
Que não vê a beleza do voo d’um pássaro
Que não sabe a dor da lágrima num pranto

E fico aqui, sentado a imaginar
Como deve ser doloroso viver só na borda
Que memórias terá, do que vai lembrar
Alguém que com o outro não se importa.

E aqui, escondido, eu matuto
Que magnata nenhum no mundo vai sentir
A alegria no peito de ver sorrir
Uma criança que passa e não tem preconceito

Sou um homem de roupa rasgada e pé no chão
E meu mundo é muito mais do que esmola
Porque a minha riqueza, moço, não ‘tá na sacola
Tá no bando de sentimento que trago no coração.



"Vamos celebrar a fome. Não ter a quem ouvir, não se ter a quem amar. Vamos alimentar o que é maldade, vamos machucar o coração (...) Vamos festejar a inveja, a intolerância, a incompreensão.  Vamos festejar a violência e esquecer a nossa gente que trabalhou honestamente a vida inteira, e agora não tem mais direito a nada..."

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Opaco

Ia postar uma crônica antiga aqui, mas também queria falar sobre o homem opaco. Acabei escolhendo ele xDD

Ele caminhava pesado sobre a calçada, como se os ombros lhe encurvasse para o chão. Não levantava a cabeça, não olhava pra frente. Mirava um ponto qualquer da calçada e ia seguindo sua linha. Não ousava, nunca, nem ao caminhar, não saía da linha imaginária que ele tinha traçado. Eu o segui, pela outra calçada, queria saber onde ia aquele homem murcho. Era assim que o via, como uma flor que murchou com o tempo. Garanto a você que ele até possuia esse aspecto meio marrom acinzentado que as flores possuem quando estão murchas. Ele era opaco. Cruzou a avenida e pela primeira vez em 30 minutos de caminhada eu pude ver seu rosto: era algo inexpressivo, simples como um pedaço de madeira que você chuta na rua. Mas seus olhos... seus olhos mostravam algo que eu nunca antes tinha sentido. Era tristeza, amargura, humildade, não sei definir... era como se ele fosse inferior, porque era exatamente assim que ele se sentia, e não queria ser diferente. Como se tivesse se acostumado a ser menos que os outros. Ele era contido. Quando viu que eu o olhava, vacilou o olhar, deixou ele cair, e eu, deixei morrer o sorriso que nascia nos meus lábios. Percebi que ele ficou confuso depois disso. Eu acabara de atormentar o seu mundinho, tão limitado e previsível. Atravessou a avenida e rumou para a catraia, eu o segui, fielmente, em silêncio. Na embarcação ele não falou com ninguém, apenas ficou olhando pro mar podre e com cheiro de soja por onde nossa catraia passava. Nem as baratinhas da parede lhe tiravam a determinação de ser invisível. Estávamos parados há 10 minutos, navios em manobra stressam qualquer ser humano comum. É chato ficar parado no meio do mar, esperando um monstro de milhões de quilos se mover muito lentamente. Eu estava na catraia. Eu e o homem. E ele era nulo. Fiquei a olha-lo, imaginando o que havia debaixo de sua pele fraca, que sentimentos escondia Percebi um leve estremecer de seu lábio inferior. Vi uma agitação que se formava e vi ainda os muitos anos de opacidade se juntando e explodindo. Ele se levantou e pulou de cabeça no mar, diante do navio em manobra. Tentamos gritar pra ele, mas já era tarde demais, ele foi preciso no salto. E o que vimos depois disso foram os vários pedaços do homem desbotado colorir o mar.


" Hmm, ela se jogou da janela do 5º andar, nada é fácil de entender..."



sábado, 21 de novembro de 2009

Olhar perdido

Pra quem acompanha o outro blog tb (http://whygodwhyyy.blogspot.com), que começou pra ser um local onde eu postaria coisas bizarras que encontramos na net, e agora é um local pra fomentar a opinião da galera sobre diversos temas, em cima da minha opinião sobre algo, concordando ou discordando, já viu mais ou menos um pouquinho do assunto que vou abordar aqui hoje. Esse post tb será diferente, não será poema. Tenho estado intensamente em contato com esse sentimento de necessidade de escrever algo sobre pessoas de rua, desde o ocorrido com o menininho do brigadeiro, que aliás, volto a dizer, não era um garoto de rua. Então, eis meu texto. Sei que ele é algo que não tem o poder de ajudar a acabar com a miséria no país, mas quem sabe seja algo que mobilize você, que está lendo a fazer algo por quem precisa.

Olhar perdido

  Ando pelas ruas do centro velho da cidade, olhando os transeuntes. Vidas opacas que caminham pela calçada, que pulam os bêbados jogados no chão, que ignoram o fedor do canal que se mistura ao cheiro da cachaça, do esgoto, do corpo suado e sujo que se estende sobre o chão, com a barba por fazer onde se aninham pedaços de pão, migalhas de algum alimento doado. Percebo que eles mal se percebem pular o homem, é um gesto automatico, repetido diariamente. Fina arte de ignorar. Vacilo meu olhar para o outro lado. Dezenas de pessoas que vem e vão na avenida larga, com o coração estreito. Anoto mentalmente durante dias, detalhes de rostos, que maltrapilhos beiram meu caminho do trabalho até a faculdade, e percebo que são os mesmos. Ali funciona uma comunidade abandonada, bem no centro esquecido da cidade.
  Percebi que todo dia, o mesmo menino, que não creio ser mais velho do que eu, fica sentado na beira do canal em frente à arvore de galhos retorcidos, pedindo comida e cigarro. Quantas e quantas vezes ele já não pediu minha bolacha/misto/hot dog/suco??? Percebi que todos os dias, a mesma mulher senta na beira do canal, chorando, e que todo dia, uma outra mulher vem e tenta consolá-la. Vi que todos os dias dois homens brigam, e que essa mulher chora justamente porque um desses homens é o seu homem. Percebi que todos os dias, uma mulher bêbada faz coreografias estranhas num bar, e os homens ficam tirando sarro, e ela nem liga. Percebi que há muito mais por trás do que a gente vê. Quando olhamos pessoas de rua, vemos apenas a parte externa, vemos a sujeira, vemos roupas rasgadas, partes por depilar, pés para serem lavados e calçados, vemos apenas a capa, e esquecemos que são pessoas como nós. Que sentem sono, fome, angústia, medo, desejo, alegria, mal-estar, sede, raiva. Que, assim como nós, tem direito a moradia, alimentação, amor, carinho, saúde. Tudo bem que muitos acabam vivendo na rua por escolha própria, mas não nos cabe julgar isso, são seres humanos comuns, que precisam de ajuda para sobreviver. Sofrem todo tipo de violência, recebem todo tipo de desrespeito e desprezo, só porque não cheiram bem. Dane-se o cheiro ou a aparência, ali está alguém de carne e osso, que sonha, anseia, espera, faz. O centro velho de Santos pode ser muito mais deprimente do que já  é se olhado de perto. Há uma mistura de miséria e descuido. Como se fosse algo esquecido no tempo, algo que ninguém liga, dá mesmo essa sensação de abandono. Nunca gostei da cidade, sempre achei meio triste aquela parte, não gosto de ir por ali. Não que só existam pessoas de rua nessa parte do mundo, infelizmente há em todo canto, mas esse lugar, em específico tem o dom de me deixar triste. Talvez por passar ali todos os dias e sentir a dor de todos eles, dentro de mim. Talvez por ver todo dia a mesma cena e não ter mais esperanças de que ela mude. Talvez por sentir vontade de gritar socorro por eles. Não, não tô tentando me promover e dizer que eu sou foda e que, eu penso no próximo e vou me candidatar à presidência. Na verdade, é bem longe disso. Escrevo por sentir o peso da impotência nos meus ombros. Por sentir um nó na minha garganta ao caminhar por ali e ver vidas se acabando sem perspectiva. Por sentir nas mãos uma energia que quer mudar isso, mas sozinha é quase impossível. Recrutar pessoas para fazer algo, sim. Não dá pra continuar nesse conformismo da sociedade. Não dá pra conviver com esse peso no coração, que me afunda toda vez que olho pelas ruas e vejo olhares perdidos, encontrando os meus.


"Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais"


Ainda

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Líquida



Eu pingo
Escorro
Liquefaço-me
Inundo
Transbordo
Eu líquida
Contra a solidez do mundo
Vou pelo ralo
Corro os canos
Vou com o esgoto
Prum mar de lama
Corro e me escorro
Corro e me escondo
Fluir
Deixa-me fluir
Deixa-me ir
Desaguando
Evaporando
Liquefazendo


"Cheia de vitórias e derrotas, ansiando paz"



terça-feira, 28 de abril de 2009

Tarde de sábado.

Foi tudo tão rápido que nem pude acreditar, ou me precaver, quando me dei conta, já estava embevecida. Não é segredo pra ninguém que sou mais dada aos versos, mas tentarei a prosa para explicar o que aconteceu naquela tarde de sábado. Estava à toa no ônibus (seeeeeeeempre ele me rendendo crônicas), vagando a mente bem longe (férias em minas, mais precisamente), indo pra casa, aquele calor úmido que só nosso litoral nos proporciona, recostada no banco, vendo a avenida correr pela janela, "pegando" molemente alguns fragmentos de conversas que entravam e saíam pelos ouvidos, oriundos das pessoas do ônibus, quando ouço ao longe uma vozinha, infantil, mínima, a cantar: "como Zaqueeeeeeeeeeeu, quero subiiiiiiiiiiiiiiiiiir, o mais alllllllllto, que eu pudeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeer". Aos poucos, notei que as pessoas estavam fazendo silêncio também. Todos concentrados no pequeno anjo de cachos que cantava timidamente no primeiro banco. Não devia ter mais do que 5 anos, e muitos cachos lhe caíam sobre o rosto, rosto este, com olhar maroto de menina esperta, anjinho a brilhar na Terra. Ganhando voz na mudez alheia, ela agora já gritava a plenos pulmões, a letra de tal canção gospel. Pude notar, embora embebida na voz do anjo, que as pessoas acompanhavam com risos nos lábios, risos de satisfação, e lágrimas nos olhos. Notava-se que a satifação escapava-nos ao olhar, sublimavamos, como o anjo de vozinha afinada, que a esta altura já berrava a letra do cântico. Pude notar ainda que o pai da menina a acompanhava com uma imensa ternura, e que a menina não cantava para nenhum de nós, cantava olhando pra frente, pro vidro do motorista, balançando seu corpinho pra direita e pra esquerda, ensaiando mudas palmas, com as mãozinhas. Deixei a mansidão daquela voz adentrar meu coração, deixei a luz das palavras possuírem meu espírito, repousei meu ser em Deus, onde tenho certeza, estavam todos os presentes naquele ônibus. Desci no mesmo ponto da menina cantora, e enquanto ela passava pelo corredor, rumo à porta, ouvi as pessoas comentarem: mas que linda! Que anjo! Deus conserve este dom! Deus abençoe! A menina continuava com o mesmo olhar maroto, de menina sapeca, esperta, inteligente, viva, e todos nós, transeuntes no caminho da vida, íamos embora pra casa, cheios da graça divina, transmitida pela voz do anjo. Pode parecer um tanto quanto exagerada esta crônica, mas 15 dias se passaram, e este ocorrido povoa minha mente, como se tivesse acontecido hoje, e só me sinto em paz agora, porque escrevi uma crônica prum anjo cantor, que numa tarde comum de sábado trouxe paz ao meu coração.