sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Opaco

Ia postar uma crônica antiga aqui, mas também queria falar sobre o homem opaco. Acabei escolhendo ele xDD

Ele caminhava pesado sobre a calçada, como se os ombros lhe encurvasse para o chão. Não levantava a cabeça, não olhava pra frente. Mirava um ponto qualquer da calçada e ia seguindo sua linha. Não ousava, nunca, nem ao caminhar, não saía da linha imaginária que ele tinha traçado. Eu o segui, pela outra calçada, queria saber onde ia aquele homem murcho. Era assim que o via, como uma flor que murchou com o tempo. Garanto a você que ele até possuia esse aspecto meio marrom acinzentado que as flores possuem quando estão murchas. Ele era opaco. Cruzou a avenida e pela primeira vez em 30 minutos de caminhada eu pude ver seu rosto: era algo inexpressivo, simples como um pedaço de madeira que você chuta na rua. Mas seus olhos... seus olhos mostravam algo que eu nunca antes tinha sentido. Era tristeza, amargura, humildade, não sei definir... era como se ele fosse inferior, porque era exatamente assim que ele se sentia, e não queria ser diferente. Como se tivesse se acostumado a ser menos que os outros. Ele era contido. Quando viu que eu o olhava, vacilou o olhar, deixou ele cair, e eu, deixei morrer o sorriso que nascia nos meus lábios. Percebi que ele ficou confuso depois disso. Eu acabara de atormentar o seu mundinho, tão limitado e previsível. Atravessou a avenida e rumou para a catraia, eu o segui, fielmente, em silêncio. Na embarcação ele não falou com ninguém, apenas ficou olhando pro mar podre e com cheiro de soja por onde nossa catraia passava. Nem as baratinhas da parede lhe tiravam a determinação de ser invisível. Estávamos parados há 10 minutos, navios em manobra stressam qualquer ser humano comum. É chato ficar parado no meio do mar, esperando um monstro de milhões de quilos se mover muito lentamente. Eu estava na catraia. Eu e o homem. E ele era nulo. Fiquei a olha-lo, imaginando o que havia debaixo de sua pele fraca, que sentimentos escondia Percebi um leve estremecer de seu lábio inferior. Vi uma agitação que se formava e vi ainda os muitos anos de opacidade se juntando e explodindo. Ele se levantou e pulou de cabeça no mar, diante do navio em manobra. Tentamos gritar pra ele, mas já era tarde demais, ele foi preciso no salto. E o que vimos depois disso foram os vários pedaços do homem desbotado colorir o mar.


" Hmm, ela se jogou da janela do 5º andar, nada é fácil de entender..."



domingo, 6 de dezembro de 2009

Poesia Urbana

Proibido para pessoas com muito pudor xD Não sou muito de escrever contos, mas gosto muito de ler. Acho que precisava escrever isso pra cessar essa louca que insiste em gritar dentro de mim...

Poesia Urbana


Eu caminhava preguiçosamente pela calçada escura do centro da cidade, chutando uma pedrinha aqui, outra acolá. Voando alto nos meus pensamentos de solidão, enquanto dezenas de putas berravam e gargalhavam à procura de fregueses, bêbadas, trôpegas, nas portas. Acompanhadas. Íamos eu e minha caixa de cerveja, bem unidas, pra casa, para termos uma a outra a noite inteira. Sempre fui fraca pra bebida, sempre fui a primeira a vomitar, sempre fui a primeira a dar vexame, a dançar sem blusa em cima da mesa em alguma festa da faculdade. E nunca liguei.
E eu pensava exatamente “Nele” quando uma gargalhada me atingiu. Encheu meus ouvidos com o som tão familiar, mas tão estranho. Tão longe, perdido nos anos passados. Foi como de repente mergulhar num mar de gelo e sentir o eriçar de cada pêlo do corpo. Era Dele. Eu sabia. Uma dor aguda me passou pelo corpo, seguida de torpor intenso. Pensei que fosse desmaiar, pensei que minhas pernas não me sustentariam. Eu podia ouvi-lo, mas onde estaria? Será que poderia vê-lo também? Ansiedade, mágoa, angústia, prazer dominaram minha alma. Me vi de repente procurando avidamente, farejando como um cão à procura de comida. Acho até que mostrei meus caninos ameaçadoramente pras prostitutas dos bordéis. Eu tinha que achá-lo. Eu o sentia tão perto.
         Senti meu coração acelerar e levantei os olhos, ainda farejando o ar. Nosso olhar se encontrou. O riso dele sumiu, e sua boca, cheia de batom, se firmou num gesto vesgo de horror. Eu o vira. Ele me viu. Acho que me paralisei por alguns segundos. Ele me olhava fixamente e eu não podia acreditar no que via. Circundando os olhos oblíquos, muito verdes, minhas azeitonas, como eu costumava brincar, havia um grosso traçado preto. Primeiro pensei que fosse uma marca de soco, mas só então me dei conta, que além do traçado preto e do batom, também havia sombras cor de rosa. E blush. Muito blush barato. Desci meus olhos por seu corpo, tão antes desejado por mim, e vi que em seu tórax ele agora ostentava um soutien. Um soutien que estava dentro de uma blusa que deixava à mostra sua barriga, lisinha, como eu sempre gostei. E ainda havia uma saia. E uma meia arrastão, que terminavam em botas de cano alto, no maior estilo “Paquita”. Comprovei que “ele” tinha se tornado “ela”. Uma puta da zona. Ali, bem ali, na minha frente.
         Senti vontade de vomitar pelo choque que tive. Como ele pôde fazer isso comigo? Esquadrinhei seu corpo e ainda o vi ali, tímido e escondido, mas vi. Ele tentou se esconder, pôs as mãos sobre os seios que não passavam de química. Arregalou seus olhos muito verdes e trancou a boca. Vi seus olhos encherem de lagrimas. Ele tinha vergonha. De repente ele começou a correr na direção oposta, fugir de mim, e eu podia ouvir seu choro, seus soluços entrecortados pelo vento. Eu, que antes sempre o protegera, que o desejara tanto e demasiadamente, que para estar junto assumira quase o papel de mãe, era o lobo que corria pela escuridão atrás da lebre.
         Virou a esquina num beco e parou na boca do lixo, nos restos de comida que algum restaurante abandonou. Sem ter como correr, me encarou, e eu vi fúria nos seus olhos, vi uma chama vermelha e quente, que me consumia, que sempre me consumiu. Ele me culpava, ele me odiava, por me amar demais, por amá-lo demais. Eu o odiava por ser o filho da puta que foi. E eu o amava por ser justamente esse filho da puta. Nosso relacionamento teve o seu fim antes mesmo de começar. Eu sempre o amei, como homem, ele nunca me amou, como mulher, ele nunca me contou sobre a sua homossexualidade, ele me enganou, me iludiu. Me fez crer no futuro, e de repente sumiu, amassando meu ideal de felicidade ao lado dele.
         Seus olhos quentes e verdes lançaram chamas em mim. Aquilo me doeu, me cortou a alma. Eu, vitima, sendo condenada por tudo, por algo que jamais fiz. Ouvi sua voz rouca gritando que a culpa era minha. Ouvi seu uivo de lobo, e de repente a lebre era eu. Recuei contra sua investida, senti a parede em minhas costas. Ele avançou como um monstro em cima de mim. Senti seu hálito de cachaça perto de meu nariz. Senti o cheiro das ervas que ele tinha fumado. Gotículas de sua saliva encontravam meu rosto púrpura de ódio, de medo. De repente vi seu peito arfar debaixo da blusa de oncinha, sua respiração era ofegante, eu acabara de ouvir os maiores desaforos do mundo, culpada de um crime que nunca cometi. Eu era a vítima, eu fui abandonada sem explicação nenhuma. E dentro de mim algo aflorou. Acho que raiva e mágoa não formam uma boa mistura quando se encontram dentro do peito.
         Eu senti o desejo me dominar, e então, o beijei. Ferozmente. Foi uma explosão de línguas e salivas e dentes e bocas. Eu o amava ainda, ardentemente, intensamente, odiosamente. Nos afastamos. Me virei e segui meu caminho, com minhas cervejas nas mãos trêmulas. Sentindo o coração pesar dentro do peito, querendo me enfiar debaixo do primeiro caminhão que passasse. As imagens ainda giravam desconexas dentro da minha cabeça. Nada fazia sentido. Ele era meu, ele tinha que ser, eu sempre o quis, sempre o desejei mais do que qualquer outro ou outra. Meu homem decidiu virar mulher. E agora eu sabia. Travamos uma batalha em plena rua. E na nossa guerra de corpos, me roubou duas latinhas de Bohemia. Maldito! Maldito Filho da Puta!


"Sei lá, sei lá, a vida é uma grande ilusão..."


quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Folhas Secas

Sentir-se vazio não significa não ter nada por dentro, mas sim, sentir o mundo externo completamente cheio de algo que você não tem.


Minha vida tem sido dias de inverno
Onde por mais que o sol apareça
Sempre há o tempo frio
E a sensação de solidão
Minha vida tem sido encapuzada
Cheia de casacos, e meias e luvas
Proteção contra o vento frio que bate.
Ainda me sinto desprotegida
Ainda me sinto vulnerável
Ainda sinto frio.
Vejo o cinza chumbo do céu
Reflexo de minh'alma também fria
Sei que hoje o sol não vem
Sei que hoje tudo é escuro
Tudo encharcado desse frio pegajoso
Grudento, que vem de mim
Sei que hoje tudo fica
O adiante é aqui.
Reclusão, palavras engolidas
Têm o gosto amargo do futuro do pretérito
Passado imperfeito que não passou.
E  não haverá futuro 
Se o presente continuar subjuntivo.
O meu coração deveria secar
Tal e qual folhas de outono
Mas ele teima em inflar e se expandir
Como nuvens no inverno.



" O nosso amor se transformou em bom dia..."
Ou nem isso.


sábado, 21 de novembro de 2009

Olhar perdido

Pra quem acompanha o outro blog tb (http://whygodwhyyy.blogspot.com), que começou pra ser um local onde eu postaria coisas bizarras que encontramos na net, e agora é um local pra fomentar a opinião da galera sobre diversos temas, em cima da minha opinião sobre algo, concordando ou discordando, já viu mais ou menos um pouquinho do assunto que vou abordar aqui hoje. Esse post tb será diferente, não será poema. Tenho estado intensamente em contato com esse sentimento de necessidade de escrever algo sobre pessoas de rua, desde o ocorrido com o menininho do brigadeiro, que aliás, volto a dizer, não era um garoto de rua. Então, eis meu texto. Sei que ele é algo que não tem o poder de ajudar a acabar com a miséria no país, mas quem sabe seja algo que mobilize você, que está lendo a fazer algo por quem precisa.

Olhar perdido

  Ando pelas ruas do centro velho da cidade, olhando os transeuntes. Vidas opacas que caminham pela calçada, que pulam os bêbados jogados no chão, que ignoram o fedor do canal que se mistura ao cheiro da cachaça, do esgoto, do corpo suado e sujo que se estende sobre o chão, com a barba por fazer onde se aninham pedaços de pão, migalhas de algum alimento doado. Percebo que eles mal se percebem pular o homem, é um gesto automatico, repetido diariamente. Fina arte de ignorar. Vacilo meu olhar para o outro lado. Dezenas de pessoas que vem e vão na avenida larga, com o coração estreito. Anoto mentalmente durante dias, detalhes de rostos, que maltrapilhos beiram meu caminho do trabalho até a faculdade, e percebo que são os mesmos. Ali funciona uma comunidade abandonada, bem no centro esquecido da cidade.
  Percebi que todo dia, o mesmo menino, que não creio ser mais velho do que eu, fica sentado na beira do canal em frente à arvore de galhos retorcidos, pedindo comida e cigarro. Quantas e quantas vezes ele já não pediu minha bolacha/misto/hot dog/suco??? Percebi que todos os dias, a mesma mulher senta na beira do canal, chorando, e que todo dia, uma outra mulher vem e tenta consolá-la. Vi que todos os dias dois homens brigam, e que essa mulher chora justamente porque um desses homens é o seu homem. Percebi que todos os dias, uma mulher bêbada faz coreografias estranhas num bar, e os homens ficam tirando sarro, e ela nem liga. Percebi que há muito mais por trás do que a gente vê. Quando olhamos pessoas de rua, vemos apenas a parte externa, vemos a sujeira, vemos roupas rasgadas, partes por depilar, pés para serem lavados e calçados, vemos apenas a capa, e esquecemos que são pessoas como nós. Que sentem sono, fome, angústia, medo, desejo, alegria, mal-estar, sede, raiva. Que, assim como nós, tem direito a moradia, alimentação, amor, carinho, saúde. Tudo bem que muitos acabam vivendo na rua por escolha própria, mas não nos cabe julgar isso, são seres humanos comuns, que precisam de ajuda para sobreviver. Sofrem todo tipo de violência, recebem todo tipo de desrespeito e desprezo, só porque não cheiram bem. Dane-se o cheiro ou a aparência, ali está alguém de carne e osso, que sonha, anseia, espera, faz. O centro velho de Santos pode ser muito mais deprimente do que já  é se olhado de perto. Há uma mistura de miséria e descuido. Como se fosse algo esquecido no tempo, algo que ninguém liga, dá mesmo essa sensação de abandono. Nunca gostei da cidade, sempre achei meio triste aquela parte, não gosto de ir por ali. Não que só existam pessoas de rua nessa parte do mundo, infelizmente há em todo canto, mas esse lugar, em específico tem o dom de me deixar triste. Talvez por passar ali todos os dias e sentir a dor de todos eles, dentro de mim. Talvez por ver todo dia a mesma cena e não ter mais esperanças de que ela mude. Talvez por sentir vontade de gritar socorro por eles. Não, não tô tentando me promover e dizer que eu sou foda e que, eu penso no próximo e vou me candidatar à presidência. Na verdade, é bem longe disso. Escrevo por sentir o peso da impotência nos meus ombros. Por sentir um nó na minha garganta ao caminhar por ali e ver vidas se acabando sem perspectiva. Por sentir nas mãos uma energia que quer mudar isso, mas sozinha é quase impossível. Recrutar pessoas para fazer algo, sim. Não dá pra continuar nesse conformismo da sociedade. Não dá pra conviver com esse peso no coração, que me afunda toda vez que olho pelas ruas e vejo olhares perdidos, encontrando os meus.


"Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais"


Ainda

sábado, 14 de novembro de 2009

Sentindo

Sentimentos à flor da pele. É tudo tão intenso, que se torna palpável, como se ondas se materializassem ao meu redor e me inebriassem, me guiassem, me protegessem e me guardassem do mundo que há aqui fora. Falsa sensação de segurança, de proteção, de coragem, estampando minha imagem. Casca de poder que me rodeia, escondendo no escuro sombrio e pegajoso minha alma e meu coração, frios e quebrados, jorrando silêncio.

Já não há palavras,
Já nao há gestos
Já não há mais esperanças
Mas ainda há sentimento
Ainda existe um coração que bate
Que sofre, que chora e implora
Ainda há a alma que clama
E os ouvidos que nada escutam
Pois ainda há também o silencio
E também ainda há a ansiedade
Contida e esmagada nas tentativas
Nos sons, na maneira, no pensamento
Já não há mais caminho
É só o pó na estrada
Mas ainda estão lá as pegadas
Passos dados que o tempo não apagou
Ainda há a lágrima que cai
Diariamente, mais uma vez, denovo
E já não há mais nada de novo
Do que essa dor tão conhecida
Vivida, exprimida, indecisa
E ainda há o gosto da perda
Amarga traição que baila no ar
E que deixa viva a memória dos momentos
Que nunca existiram
Mas foram sonhados.
Ainda há mágoa
Ainda há amor
Mas não há mais sonhos
E ainda resta dor.

"Tudo que sei é que você quis partir, e eu quis partir você, tirar você de mim, e eu demorei pra esquecer, demorei pra encontrar um lugar onde você não me machucasse mais..."