segunda-feira, 29 de maio de 2017

Oca

As bolas de algodão passeavam por sua face. Aos poucos, revelava seu rosto real, enquanto a cara maquiagem tingia a bolota branca e macia em sua mão.

Assim, de cabelos presos e rosto limpo, lembrava apenas vagamente a mulher que era durante o dia. As bolsas arroxeadas sob os olhos eram constantes agora. Era necessário muito corretivo e pó para deixar a pele apresentável.

Andreia sentia o peso da idade. Seus 32 anos, cheios de baladas e vida noturna, além da constante cara fechada, faziam-lhe rugas próximas aos olhos. As mãos, antes macias, começavam a apresentar algumas manchas e aspereza.

Olhou-se francamente no espelho, e não gostou do que viu. Não se via na mulher madura que o reflexo lhe mostrava. Não conseguia se enxergar sem as roupas de grife, a maquiagem impecável e todos os adereços luxuosos que ostentava. Assim, despida de tudo o que lhe compunha, era somente mais uma, e ela gostava mesmo era do destaque.

Deitou, mas não conseguiu dormir. Rolava pela cama vazia, pensando em sua vida. Mais de 30 anos, morando com a mãe, em um emprego que não via muita evolução, sem um namorado fixo e sem nada que fosse seu de verdade, além das dívidas em seu nome dos cartões de crédito.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Subterfúgio Antropofágico

Subterfúgio Antropofágico


Meus sonhos estão esquecidos
No fundo da gaveta
Amassados numa garrafa qualquer
Vendidos por uma vida "normal"
Sem mal
Sem tal
Sem sal

Meus anseios foram engolidos
Minimamente deglutidos
Mastigados e mitigados sofregamente
Como quem engole sapo
Sem trato
Sem tato
Sem papo

Minha vida foi dilacerada
Como colisão frontal
Uma profusão de dor e sangue
Estrebuchando no chão
Sem comunhão
Sem mansidão
Sem compaixão

E o que me resta é o fim dos tempos
Certeira lança fincada
E meu subterfúgio antropofágico
É me consumir
Sem fingir
Sem sumir
Sem partir

De fato.





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"Where do you go when you're lonely? Where do you go when you're blue? (...) When the stars go blue..."


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Atraso

Atraso

Tua ausência é o que há de mais presente
Mais pungente
Mais mordente
Mais urgente.

Teu silêncio é punhal cravado
Bem afiado
Bem marcado
Bem apertado.

Tua lembrança é fogo em brasa
Que me abrasa
Que me atrasa
Que me arrasa



Ê saudade.


Fonte: Google Imagens

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"Quando não estás aqui, sinto falta de mim mesmo."

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Embriaguez

Teus olhos
Tuas mãos
Tua carne
Teu eu.
Tudo em ti
Toca o que há de mais insano em mim.

Tua presença
Tua certeza
Tua firmeza
Tua solidez.
Toda tua constância
Inebriam a minha alma inquieta e ansiosa.

Teu ar
Teu cheiro
Teu gosto
Teu calor.
Tudo que emana de ti
Me enlaça o juízo e me lança à loucura.

Sonhos
Sussurros
Promessas
Delírios.
Você, por inteiro,
Me leva ao torpor de uma louca embriaguez.

Fonte: Google Imagens

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"É que eu te vejo em tudo. Em cada canto dessa casa. Nos cabides, nas gavetas e na cama bagunçada, e no box do banheiro sempre que o vidro embaça, tem seu nome, um coração, e uma flecha atravessada."

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Verborragia

Verborragia

Entre gritos silenciosos
Minha garganta muda
Clama por razão.
A discreta transição
Entre sensato e insano
É tênue, imperceptível.
Não são opostos,
Mas, complementares.
Não há paz onde nunca houve guerra.
Danço em brasas quentes
Labaredas que consomem meu ar
Misto de prazer e dor.
Flerto com a morte e a loucura
E suavemente, deslizo entre sanidade e razão.
Com o ritmo cadenciado dos desesperados
Que fingem o equilíbrio felino.
Toda palavra é flecha
Cada nova aurora é lâmina
A realidade é poesia marginal
A estapear-me a cara.
A madrugada é finita.
Acorda, mulher!
É dia...


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"O deserto que atravessei, ninguém me viu passar. Estranha e só. Nem pude ver que o céu é maior."