terça-feira, 18 de abril de 2017

Subterfúgio Antropofágico

Subterfúgio Antropofágico


Meus sonhos estão esquecidos
No fundo da gaveta
Amassados numa garrafa qualquer
Vendidos por uma vida "normal"
Sem mal
Sem tal
Sem sal

Meus anseios foram engolidos
Minimamente deglutidos
Mastigados e mitigados sofregamente
Como quem engole sapo
Sem trato
Sem tato
Sem papo

Minha vida foi dilacerada
Como colisão frontal
Uma profusão de dor e sangue
Estrebuchando no chão
Sem comunhão
Sem mansidão
Sem compaixão

E o que me resta é o fim dos tempos
Certeira lança fincada
E meu subterfúgio antropofágico
É me consumir
Sem fingir
Sem sumir
Sem partir

De fato.





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"Where do you go when you're lonely? Where do you go when you're blue? (...) When the stars go blue..."


domingo, 12 de fevereiro de 2017

Vida dolorida

- Será que um dia vai parar de doer?

Essa frase tão simples, direta, choramingada pelo filho caçula que tropeçara e arrancara o topo do dedão na estrada há alguns minutos, atingiu em cheio Maria Aparecida. Ela mesma fazia esse questionamento todos os dias, desde a morte do filho do meio, há 4 meses.

Entorpecida pela dor, virou uma mulher murcha, calada. Nem se deu o trabalho de responder, passou a mão seca pelos cabelos do filho, num gesto que era um ensaio de carinho, e o pequeno continuou a chorar baixinho.

Maria Aparecida e os filhos - agora quatro - caminhavam beirando a estrada, levando na mala todos os seus parcos pertences, e no coração, todas as dores do mundo, além de uma pontinha de esperança. Ela era uma mulher nova, 35 anos, que na cara faziam-na parecer ter 50. O filho mais velho tinha 15 anos, a menina tinha 12, o penúltimo, 7, e o caçula 6. O lugar do meio, agora vago, era de Francisco, que morreu de febre, fome, e sede, aos 9. Maria morreu um pouquinho com ele, de tristeza. Quando enterrou o filho na terra seca do quintal, sentiu nos ombros todos os anos de batalha no sertão, sozinha. O marido morreu de trabalhar. Caiu duro, de cara na terra vermelha e rachada do quintal, com o facão na mão, e um punhado de palma noutra. Êta vida difícil.

Sozinha, batalhava de sol a sol. Os dois mais velhos largaram a escola pra ajudar, mas não teve jeito. Nem gado sobrevivia ali, quanto mais gente. Juntou os trapos, uma imagem do sagrado coração, uma Nossa Senhora Aparecida - sua xará - e a foto do casamento pendurada na parede e partiu rumo à Salvador com os rebentos. Sentia o peso da injustiça daquilo tudo na alma, mas justiça era privilégio que não valia pra sertanejo.

Já caminhavam há duas semanas, parando só à noite, pra comer e dormir num amontoado de plástico e papelão na beira da estrada. A palma cozida na água com um pouco de sal, e bolo de farinha com água era a refeição de todo dia. Maria comia pouco, pra sobrar mais pros meninos. Toda noite achavam um cantinho no meio do mato, perto da estrada, acendiam uma fogueira baixa, jogavam tudo na panela, cozinhavam e comiam. Depois se esticavam nos papelões e o filho mais velho arranjava o plástico como se fosse uma barraca, sustentada por uns galhos mambembes. Era quente, eles fediam, mas estavam cansados. Dormiam poucas horas e seguiam. Maria só tinha uma coisa na cabeça: precisavam achar o irmão em Salvador.

Quanto mais caminhavam, mais obcecada ficava com essa ideia. Com os dias passando, a família que já era silenciosa, ficou ainda mais calada. Ela sentia pena dos filhos, mas não tinha forças para fazer mais nada, então, continuavam. Podia sentir o pé doer, as tiras da sandália de couro, dura, arrancaram-lhe a pele, e os pés estavam em carne viva. Os chinelos dos menores estavam gastos e o chão quente queimava os pés, mas eles não reclamavam. Seguiam os passos da mãe.

O mundo girou quando ela avistou um pontinho de cidade adiante. O estômago, que doía ferozmente de fome, revirou em ânsia, e Maria se permitiu chorar. Uma lágrima apenas. Firmes e confiantes, rumaram naquela direção, e em poucas horas estavam em Salvador. Pegou na sacola o endereço nas mãos analfabetas, e o filho mais velho tratou de perguntar para as pessoas como chegar lá. Ao fim do dia, batiam à porta do irmão. Muitos abraços e goles d'água fresca depois, Maria pode relaxar um pouco e se dar ao luxo de um rápido banho. Enxergou o tom escuro da pele por baixo da crosta de barro vermelho. Até se atreveu a olhar no espelho. Se sentiu velha, mas vitoriosa.

O irmão não era rico, mas era casado, e não tinha filhos. E ela e as crianças puderam ficar no outro quarto. Deitou num colchão inflável no chão, enquanto as crianças dividiam duas camas de solteiro. Pela primeira vez deitada em algo macio, olhou os filhos demoradamente antes de fechar os olhos. Um a um. Inspirou com força e expirou pela boca. Cerrou as pálpebras, com um sentimento quase feliz no peito - satisfação - e foi se encontrar com seu marido e seu filho, num pedaço de nuvem.

Foto: Lucia Gaspar. o nordeste.com

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"Quando oiei a terra ardendo, qual fogueira de São João, eu perguntei a Deus do céu, ai, por que tamanha judiação?"

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Atraso

Atraso

Tua ausência é o que há de mais presente
Mais pungente
Mais mordente
Mais urgente.

Teu silêncio é punhal cravado
Bem afiado
Bem marcado
Bem apertado.

Tua lembrança é fogo em brasa
Que me abrasa
Que me atrasa
Que me arrasa



Ê saudade.


Fonte: Google Imagens

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"Quando não estás aqui, sinto falta de mim mesmo."

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Embriaguez

Teus olhos
Tuas mãos
Tua carne
Teu eu.
Tudo em ti
Toca o que há de mais insano em mim.

Tua presença
Tua certeza
Tua firmeza
Tua solidez.
Toda tua constância
Inebriam a minha alma inquieta e ansiosa.

Teu ar
Teu cheiro
Teu gosto
Teu calor.
Tudo que emana de ti
Me enlaça o juízo e me lança à loucura.

Sonhos
Sussurros
Promessas
Delírios.
Você, por inteiro,
Me leva ao torpor de uma louca embriaguez.

Fonte: Google Imagens

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"É que eu te vejo em tudo. Em cada canto dessa casa. Nos cabides, nas gavetas e na cama bagunçada, e no box do banheiro sempre que o vidro embaça, tem seu nome, um coração, e uma flecha atravessada."

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Verborragia

Verborragia

Entre gritos silenciosos
Minha garganta muda
Clama por razão.
A discreta transição
Entre sensato e insano
É tênue, imperceptível.
Não são opostos,
Mas, complementares.
Não há paz onde nunca houve guerra.
Danço em brasas quentes
Labaredas que consomem meu ar
Misto de prazer e dor.
Flerto com a morte e a loucura
E suavemente, deslizo entre sanidade e razão.
Com o ritmo cadenciado dos desesperados
Que fingem o equilíbrio felino.
Toda palavra é flecha
Cada nova aurora é lâmina
A realidade é poesia marginal
A estapear-me a cara.
A madrugada é finita.
Acorda, mulher!
É dia...


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"O deserto que atravessei, ninguém me viu passar. Estranha e só. Nem pude ver que o céu é maior."